DIREITO EM VOGA

Reconstruindo a ponte do diálogo e os conflitos judiciais

Posted in Curtas / Short Ones by Marcello Rodante on junho 19, 2013

por Marcello Rodante

É interessante notar como algumas práticas corriqueiras e que deveriam ser bem compreendidas pelo público em geral acabam sendo esquecidas ou ignoradas quando do surgimento de um conflito.

Tornar a tratar desse tema pode parecer lidar com a obviedade, com algo antigo, conhecido ou desatualizado, mas é impressionante como o dia-a-dia nos faz perceber que nada é tão óbvio ou claro quando se está diante de uma situação de disputa.

Aqueles que vivem uma situação de conflito, já judicializada ou prestes a estar judicializada, possuem basicamente duas opções:

(i)               manter-se na postura do litígio, seguir e esperar o curso normal da demanda, na qual o processo será apenas mais um processo (e digo: não será o processo mais especial para o Juiz ou para o Cartório), e, com isso, aceitar os riscos e vieses naturais de uma demanda, a qual poderá, ao final, reconhecer e satisfazer, ou não, o Direito almejado; ou

(ii)             tentar, por mais difícil ou desagradável que num primeiro instante possa parecer, trabalhar na “reconstrução da ponte de diálogo” com aquele com quem se antagoniza[1].

É justamente sobre essa segunda opção que me debruço, daí  advindo a seguinte indagação: quando as partes sentam-se frente a frente, seja na sala de audiência, em um escritório de advocacia, ou qualquer outro local, para tentar “negociar” ou ter “mediado” o seu conflito, as partes estabelecem necessariamente um diálogo?

Diálogo, muitos pensam ou irão dizer, consiste no ato de uma parte falar e de a outra ouvir, e vice-versa. Uma gravação externa, em vídeo, mostraria justamente esta imagem: uma pessoa falando e a outra ouvindo.

Porém, quando uma parte está “falando”, a outra está “realmente ouvindo”, ou seja, está “escutando”?

Não estaria ela, no fundo, apenas pensando na pergunta que logo irá fazer, na resposta que logo irá dar, na forma como irá abordar ou interferir no curso daquela reunião ou sessão e, com isso, deixa ela (a tal parte) de efetiva e realmente escutar – com profundidade (microfoco) – o ponto de vista do outro?

Ou, ainda, quando da reunião, lá estão as partes para reconstruir a ponte do diálogo e redesenhar uma nova dinâmica e melhor forma de interação, ou lá estão apenas para argumentar e contra-argumentar suas próprias e fechadas razões, num processo quase infindável de tentativa de convencimento do outro, ambos seguindo e se mantendo fechados?

O ponto é: não seria potencialmente muito mais produtivo se as partes, quando têm a possibilidade de iniciar uma reunião de negociação, conciliação ou mediação, atentassem e cuidassem para escutar o que o outro tem a dizer, se permitindo e se concedendo a oportunidade de se convencer do que o outro tem a dizer, buscando ter mais calma e serenidade diante daquele momento, não o desperdiçando por estarem presas e limitadas às suas próprias razões e interpretações?

Tenho presenciado que à medida que uma parte se “abre” para que a outra possa convencê-la, outras janelas na comunicação, na interação humana, são automaticamente abertas e, com isso, são ampliadas as possibilidades de reconstrução da relação, da dinâmica e da própria resolução da desavença, a qual acaba sendo solucionado quase que a reboque.

Várias vezes me deparei com pessoas, em tese “dialogando”, querendo apenas falar e não escutar; convencer sem permitir serem convencidas; querer receber sem estarem aptas a dar e, ao final, se queixarem de que nada muda, que o conflito não é resolvido, que a culpa é do outro. Sempre do outro.

Porém, por outro lado, também já me deparei com pessoas que ao se permitirem escutar, ao final, acabaram sendo – em pequena ou boa parte – removidas de uma opinião que parecia incrustada, enraizada; ou seja, foram convencidas, mas também conseguiram, na mesma ocasião e em próxima medida, convencer o outro, alterando a dinâmica que até então parecia imutável.

Em síntese: é claro que não serão em todos os casos, nem serão em todas as oportunidades que a dinâmica relacional das partes irá mudar, porém, em muitas delas, quando diante de uma sessão de negociação, conciliação ou mediação, decorrente de um conflito judicial em pauta, um bom conselho é: procure estar mais aberto ao que outro tem a dizer. Escute. Trabalhe na reconstrução da ponte do diálogo, mesmo que a você caiba colocar o primeiro, o segundo ou o terceiro tijolo nessa obra. Novos e bons frutos poderão (repito: poderão) advir daí. A tentativa poderá ser válida, do contrário, o jeito será mesmo seguir com aquela primeira opção e aguardar.


[1] Aqui, vale a nota, descarto os casos de simples e fácil acordo entre as partes, no qual o grau de litigiosidade é baixo e a simples conciliação é bem vinda por ambos, tão logo provocada a oportunidade.

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